segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Joana:


Pois bem, você
vai escutar as contas que eu vou lhe fazer;
te conheci moleuqe, frouxo, perna bamba
barba rala, calça larga, bolso sem fundo
não sabia nada de mulher nem de samba
e tinha um puto dum medo de olhar pro mundo
As marcas do homem, uma a uma, Jasão,
tu tirou todas de mim. O primeiro prato,
o primeiro aplauso, a primeira inspiração,
a primeira gravata, o primeiro sapato
de duas cores, lembra? O primeiro cigarro,
a primeira bebedeira, o primeiro filho,
o primeiro violão, o primeiro sarro,
o primeiro refrão e o primeiro estribilho
Te dei cada sinal do teu temperamento
Te dei a matéria prima para o teu tutano
E mesmo essa ambição que, neste momento,
se volta contra mim, eu te dei, por engano
Fui eu, Jasão, você nãose encontrou na rua
Você andava tonto quando eu te encontrei
Fabriquei energia que não era tua
pra iluminar uma estrada que te apontei
E foi assim, enfim, que eu vi nascer do nada
uma alma ansiosa, faminta, buliçosa,
uma alma de homem. Enquanto eu, enciumada
dessa explosão de ti, Jasão, era feliz
eu era feliz, Jasão, feliz e iludida,
porque o que eu não imaginava, quando fiz
dos meus anos a mais uma sobrevida
pra completar a vida que que você não tinha,
é que estava desperdiçando o meu alento,
estava vestindo um boneco de farinha]Assim que bateu o primeiro pé de vento,
assim que despontou um segundo horizonte,
lá se foi meu homem-orgulho, minha obra completa. Aproveitador!

Gota d" agua, Chico Buarque

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